domingo, 28 de outubro de 2018

HÁ DIÁLOGO NAS REDES SOCIAIS?

Na maior parte das discussões não há diálogo nas redes sociais. O que existe é um palco onde temos, fakes, vítimas, algozes e platéia. No Brasil, segundo a última pesquisa do IBGE (dados de 2016) são 116 milhões de pessoas conectadas online, ou seja, 64,7% de toda a população convidadas a participar neste cenário.

Nós passamos a ter nos últimos anos uma cisão onde o meu inimigo passou a ser o meu próprio colega de trabalho, meu colega na escola, no curso, meu familiar. O mundo vive hoje num espaço no qual podemos expressar, postar e divulgar, nossas opiniões, fundamentadas ou não, usando as redes sociais. Mas o que mais se verifica nesse meio é que não importa o argumento e também não é importante ganhar, ou perder essa ou aquela discussão. O objetivo que toma forma inicialmente no mundo virtual é a destruição do outro, independentemente de seus argumentos, sem respeito, sem diálogo, desprezando-se as divergências.

A escolha agora é a do "ou eu ou você". Esse posicionamento, que na verdade, sempre existiu de forma mais branda, potencializou-se com o uso das redes sociais. Atualmente, a idéia de consenso e a possibilidade de se conjugar primeira pessoa do plural, o "nós", tem perdido força na reunião e na discussão dos indivíduos virtuais. A poderosa experiência de se mostrar sem medo e sem temor através das redes sociais têm contribuído em muito para esse clima de ódio e polarização no qual o mundo está vivendo. Um clima onde a polarização se desenvolve para a destruição do pólo de onde brotam as divergências, bem como para a formação e surgimento de grupos que se isolam em suas próprias idéias e que se consentem mutuamente, reforçando entendimentos, congruências e semelhanças.
A tecnologia da informação através do uso das redes sociais, cria indivíduos inventores de inimigos, que desprezam o diálogo e se acovardam diante das controvérsias. É importante ressaltar que a tecnologia é inocente nesse processo e incontestável sua absolvição deixando apenas no banco dos réus o indivíduo e seu superego. O problema é sempre o usuário e não o objeto.

Com o suposto argumento da liberdade de expressão, cresce o discurso da destruição, da erradicação das diferenças e o irreconhecimento das diversidades, sociais, culturais, de gênero, entre tantas outras, bem como a redução do complexo pela busca de soluções imediatas.

É importante ressaltar que a democracia gera conflitos, mas sua prática saudável também deve gerar consensos. Nas redes sociais o consenso perde espaço para o conflito e a destruição do outro é o que a platéia deseja ou se não a deseja não a reprova. A liberdade de expressão não pode estar dissociada da dignidade humana, um princípio basilar da convivência social quer seja no mundo real ou virtual.

Ao invés de se aproveitar o alcance, a conectividade, interatividade e a diversidade que as redes sociais oferecem, para nesse ambiente de uma sociedade virtual, todos se tornarem mais abertos a novas idéias cedendo espaço ao diálogo, percebe-se justamente um efeito inverso. Os participantes virtuais fomentam o preconceito, alimentam o ódio, se afastam do diálogo, transformam amigos em inimigos, se fecham e reforçam suas opiniões através da violência, transformando tudo num tipo de apartheid que sai do virtual e se manifesta no mundo real.

Um trecho de uma reportagem transcrita no jornal El País em entrevista com Zigmunt Bauman, 

(Ricardo de Querol) Pergunta.: As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?

(Zygmunt Bauman) Resposta. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto.
A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.

Fontes:

https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/brasil-tem-116-milhoes-de-pessoas-conectadas-a-internet-diz-ibge.ghtml

https://canaltech.com.br/comportamento/uma-analise-sobre-a-propagacao-do-odio-pela-internet-e-suas-consequencias-100018/

https://youtu.be/R8TQBcwd5rc

https://danielebrandao7.jusbrasil.com.br/artigos/172170217/o-discurso-do-odio-na-internet

(Entrevista completa em: https://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/30/cultura/1451504427_675885.html)

Zygmunt Bauman (Poznań, Polônia, 19 de novembro de 1925 – Leeds, Reino Unido, 9 de janeiro de 2017[2]) foi um sociólogo e filósofo polonês, professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia.



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